sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Mudar ou não mudar?! Eis a questão

“Um sussurro da ventania tardia meu pensamento. O vento invade a janela, balança a cortina e dança com meus cabelos curtos. O tiritar parece música clássica, e meus pensamentos nem respondem mais. Meu olhar concentra-se no teto branco do meu quarto e nas rajadas de luz solar que entram pela pequena fresta da cortina. O vento muda de direção assim como o ser humano muda de opinião, ou pelo menos deveria mudar, ou não?!”
O fato é que ao acordar Amélia sempre faz a mesma coisa, ouve o vento bater na janela, sente a brisa refrescar sua pele e dançar com seu cabelo. Ainda de olhos fechados, por alguns segundos ela não pensa em nada. Ao abri-los, verifica a cor do teto, e se o sol lhe fizer companhia, as rajadas douradas estarão lá, no mesmo lugar.
Amélia nunca foi dada a mudanças, nem de hábitos, nem de estilo, nem de opinião. Amélia não muda. Ela aceita, apenas.
Roupas no armário separadas por cores, jeitos e estações. Preto, cinza, azul-marinho, bordô, beje e branco como a neve. Sapatos também separados, mas estes por lembranças e sensações. Acessórios, quase não possui, bastam lhe uma presilha herdada de sua mãe, Emília, e um lenço cor de outono herdada de sua avó, Antonia.  
Amélia abre e fecha os olhos como todo mundo no universo, mas a jovem, que de jovem quase não aparenta ser, somente vê, não enxerga.
Saí de casa pontualmente às sete horas. Caminha vagarosamente por entre ruas e pessoas essencialmente apressadas, porém a feição de Amélia não muda. Ela abre e fecha os olhos e vê. Apenas vê.
Amélia olha o pulso e encontra o relógio que combina em cor, jeito e estação com sua roupa do dia, o ponteiro já marca sete e trinta da manhã. E ela pensa: Já estou chegando...
Atravessando a Rua da Consolação, lá está seu destino. A padaria que serve breakfast todos os dias já está lotada de clientes disputando os assentos. No recinto há vinte mesas com quatro cadeiras cada, há lugares para oitenta pessoas, porém a padaria só pode atender 20 clientes por vez. O patrão, Sr. Astolfo prometeu reformar a padaria e trocar as mesas, e no lugar disponibilizar um grande balcão. O motivo deste tumulto matutino e diário é que os clientes em geral, entram, sentam-se numa mesa, pedem seu café e acompanhados de parafernálias eletrônicas de grande alcance e alta definição, esquecem do universo que os rodeiam. E claro, sentam-se em uma cadeira, dispõem o notebook numa outra cadeira, a bolsa contendo um tablet em outra, isso tudo com um fone no ouvido.
Amélia não cansa de abrir e fechar os olhos, e somente desta vez ela observa e enxerga ao seu redor.
Ela fica perplexa com tanta mudança, e diz que antes os clientes vinham com uma espécie de telefone portátil, e que ficavam um longo tempo apreciando sei lá o que neles, sozinhos os clientes riam, mudavam de expressão e queixavam-se. Um tempo depois, e nem tanto tempo assim, começaram a vir com aparelhos maiores e estes ocupavam boa parte da mesa, abriam o aparelho como se fosse uma caixa de música, mas de lá, não saia nada além de pessoas solitárias de um lado e do outro, conversando por mensagens instantâneas e sem tato. Amélia definitivamente não entendia.
Mais um tempo se passou e começaram a trazer para o café vários aparelhos diferentes e como se fossem malabaristas, pegavam um e outro numa fração de tempo tão absurda que seus olhos não podiam acompanhar.
Aos poucos Amélia deixava de receber Bons Dias e Olás e passou a ser cumprimentada por acenos e balanços discretos de cabeça. Uns meses depois, nem isso.
Amélia nunca foi dada a mudanças, nem de roupas, nem de jeitos, nem de cortes de cabelos.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ligação espiritual ou malandragem

Juro, juro e juro! Não entendo como as pessoas se deixam cegar tão completamente. Não entendo como as pessoas sofrem por amor. Por exemplo, no dicionário, o significado de AMOR se resume em sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso. Afeição, ligação espiritual, benevolência, carinho, simpatia. Percebe-se que, todos os sinônimos são "positivos" por assim dizer.. Tratam de expressar algo tão grandioso e formoso que até mesmo, nossa própria compreensão torna-se insignificante perto de tal sentimento. Lembrem-se bem... "Algo tão grandioso e formoso". É possível alguma coisa nesse mundo ser grandiosa e formosa se não for boa?!
Ok Ok... você pode até pensar ao extremo.. As pessoas que gostam de sentir dor. Mas, ainda assim.. não acredito que o amor esteja ligado a esta vertente.
Ouço, por várias e várias vezes, principalmente mulheres, associarem sofrimento com o convívio a dois, seja no namoro ou no casamento. E o que mais me deixa perplexa, é que sempre, ou quase sempre, elas esperneiam, xingam, choram, dormem e de repente, como o sol da manhã faz desaparecer as estrelas, tudo é esquecido ou empurrado para baixo do tapete. Agora eu pergunto.Qual a verdadeira razão de se submeter a sofrimentos diários e não tomar atitudes para isso mudar?! Qual a verdadeira razão.
Difícil. Alguns dizem que não conseguiriam viver sozinhos, e dão como motivo o medo da solidão. Outros ainda colocam o amor como principal motivo para aceitarem de cabeça baixa e coração amargurado aos mandos e desmandos do companheiro.
Acalmem-se.. pois é necessário esclarecer algo. Este texto não tem nada de feminista.. Muito pelo contrário, as mulheres deveriam ter algumas atitudes masculinas, pois é fato que o homem quando sofre larga e pronto. Ao passo que a mulher quanto mais sofre mais assume o papel de "mulher de malandro". O que é um pecado imperdoável às outras mulheres.
Opiniões se divergem, convergem e se esbarram sempre e a toda hora. 
Mas, eu faço valer a minha tese. Amar é bom, sofrer não.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

É.. vortei! Mas..

É tão estranho voltar para o blog, quando pessoas se desesperam ao ver, incrédulas, o desabamento não somente de suas casas, seu bens materiais, mas também, o desabamento de suas próprias almas e as almas de pessoas queridas.
E ao mesmo tempo é tão estranho voltar a escrever quando palavras não farão parte do melhor para este momento e sim, ações.. atitudes deveriam ser o alicerce para estas vidas que hoje estão sem rumo e sem chão.
Escrevo agora, pois escrevendo eu liberto emoções que estão aprisionadas e que eu, sinceramente, sinto vergonha de expor neste momento. Felicidade, alegria, saúde, lar, minha família.
Sentimentos abstratos que hoje posso sentir no pulsar do meu coração.. Lar que posso, sem medo, vislumbrar ao pisar no meu piso e olhar para o meu teto.. Família que eu posso abraçar e dizer o quanto são importantes para mim. Uma vida é feita de detalhes, e acredite.. uma história também.
Detalhes estes que as vítimas do Rio de Janeiro, não poderão ou não se permitirão sentir. Suas vidas estarão marcadas para todo o sempre.