Acordo de madrugada, oras com a brisa oras com o calor a guiar meus pensamentos. Alternando entre lençóis e cobertores sinto tua presença ao meu lado. Mais um toque sutil e fecho os olhos lentamente como se nem o maior dos barulhos pudessem incomodar-me.
"O tempo é o dono de tudo". Repito inúmeras vezes a frase para que eu não me veja em desespero. Ainda com meu corpo estirado na cama, olho o teto sem nada esperar. Observo o vazio do meu quarto e nele não sinto nada, nem mesmo a presença do meu próprio corpo.
Guio minha mente para o que há de melhor e mais puro no mundo, mas mesmo com o esforço que faço, meu próprio tentar me engana e faz gritar uma força que eu não conhecia. Grito teu nome, grito tudo que ainda me faz te lembrar. Meu coração se assusta com o despertador. Já são seis da manhã.
Levanto-me ainda cambaleante e deixo o impulso matinal guiar-me até os lugares da casa que já conheço bem. Levo um tempo até que o meu olhar se acostume com a claridade solar que invade a janela.
No caminho do trabalho olho várias vezes para o relógio, o engarrafamento é torturante para os motoristas e também para os que dependem de ônibus como eu. Os sinais dos semáforos se intercalam entre verde, amarelo e vermelho, mas o trânsito continua igual por trinta minutos.
Neste instante, ainda pensativa, observo atentamente a minha volta. Vejo pessoas nervosas, sonolentas, inquietas e outras num misto de reflexão e meditação. Um contraste semelhante ao coração de uma mulher.
Ainda parada no semáforo, entre cotoveladas e empurrões, observo um homem do outro lado da rua sentado no banco, alheio a todo o caos. Usando roupas um tanto sujas e chinelos de dedo, cabelos estilo anos 70, black power. Mas, independente da visão, uma coisa não se encaixava. Um objeto de plástico transparente vermelho. Aquele personagem não cabia naquela história de caos, naquele submundo de egoísmo e orgulho. O homem que aparentava quarenta e cinco anos tinha o olhar de inocência. A pasta vermelha que ele segurava e por oras acariciava poderia conter o mais banal dos objetos, porém para o homem, e somente para ele era algo incomum, uma relíquia sem igual.
O fato é que instantaneamente, os barulhos ensurdecedores da vida urbana se afastaram da minha mente como magia, assim que eu observei atenta aquela cena que me remetia a algum filme americano. É provável que a vida daquele homem tenha estacionado nos anos 70 assim como o seu cabelo estiloso, como também é provável que nem mesmo ele tenha percebido isto ou talvez tenha escolhido não perceber.
O importante era o seu olhar, o olhar do homem que transmitia um coquetel de coisas boas. Do mais simples ao mais clínico olhar, só resta esta definição. Ele tinha um olhar impermeável.
O pouco que observei era nítido sentir que o olhar daquele homem tinha uma espécie de filtro, que retia tudo que não lhe fosse útil. E mais, retia tudo de fútil que o submundo pudesse lhe oferecer.
Depois de muito custo, o ônibus seguiu levando cada coração ao destino. Porém, antes do motorista engatar a segunda marcha, pude ver mais uma vez aquele homem que ao acariciar a sua pasta vermelha como se nela estivesse a sua vida (e quem sabe a vida não estivesse mesmo pulsando naquela pasta?), imediatamente pensei nos meus problemas, nas soluções que hesito em procurar, nos sorrisos que deixei de dar, nas oportunidades que reneguei de abraçar meus amigos, e nas palavras de afeto que não distribuí para as pessoas especiais. Pensei nos dias de sol e de chuva que não aproveitei.
Quando se quer algo, é tão simples tentar. Mesmo que não se chegue, mesmo que se mude de estrada várias vezes, mesmo...
Ainda assim, vale a pena filtrar nossos olhares e escolher o que nos fará feliz hoje.
O hoje é o importante. Sempre.